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01 Nov 2026 Por Octavio Arbeláez Tobón

INCERTEZAS - A AMÉRICA LATINA, AS ARTES CÊNICAS E A CRISE CIVILIZATÓRIA

INCERTEZAS - A AMÉRICA LATINA, AS ARTES CÊNICAS E A CRISE CIVILIZATÓRIA

O dilema político essencial do estado do mundo contemporâneo reside na tensão entre a paz, o diálogo e a legalidade, tanto quanto no sentido de espécie e em sua sobrevivência; isto é, uma política orientada para a vida e a democracia. Mas esse sentido se dilui em meio às obsessões de poder, controle e posse. A indiferença manifesta em numerosas nações, organizações, instituições e lideranças é semelhante à observada nos anos de 1913 ou 1933, quando a atenção se concentrava nos temas mais imediatos, enquanto milhões de pessoas caminhavam, sem saber, em direção à morte. No presente, isso se expressa numa anomia das políticas de longo prazo e numa grave anemia da memória histórica, que será lembrada nos anos vindouros como um dos desvios que nos conduziram ao pântano global. A inconsciência diante da gravidade dos acontecimentos atuais é, além disso, um vazio cultural, ético e de racionalidade que persiste em meio a um mar de notícias-espetáculo. Os colapsos morais da longa trajetória humana se articulam quando coincidem tensões extremas de poder geopolítico com elites internacionais de visão global limitada, em contextos psicossociais de apatia próxima ao hedonismo e de tédio intelectual associado a acadêmicos insensíveis, como acontece hoje em escala internacional.

Parafraseando a Poética de Aristóteles, poderíamos dizer que a diferença entre o historiador e o poeta está no fato de que o historiador registra o que aconteceu, enquanto o poeta registra o que poderia ou pode acontecer. Assim, a poesia voa no impossível, enquanto a história se ancora nos fatos que, embora complexos, são narrados a partir de sua materialidade. Neste século XXI, sabemos, com espanto, que o possível e o impossível se articulam numa mesma virada e crise da civilização. Sua história imediata e suas perspectivas de violência desestabilizaram boa parte das ciências sociais e humanas, bem como o campo criativo das artes cênicas, encurralando-as em análises de conjuntura. Ainda assim, os estudos e escritos mais perspicazes deste tempo falam a partir da perplexidade e da dúvida, não das certezas e dos dogmas.

O fim das certezas marca o possível início de outras formas de narrar a realidade por meio do discurso dramatúrgico. Dá-se pouca ênfase à paz e menos ainda à convivência na diversidade. Sob outras perspectivas, são concebidos mundos líquidos e incertezas, acaso e indeterminações, emergências e rupturas, a partir de uma espécie de perplexidade criativa do campo cênico, que já não olha para a história como grande narrativa e mecanismo do destino político do ser.

Por isso, devemos fortalecer esses espaços nos quais se cozinha lentamente o conceito de um teatro como saber polêmico e argumentativo, ativo e provocador. Um lugar onde tudo é estudado, cada questão é debatida e o argumento constitui a base do diálogo e do respeito. Um mundo sem as visões críticas provenientes do teatro esgotaria sua visão de humanidade, substituindo o caminhar pelo vagar e o conhecimento pela rotina da criação burocrática.

Nesse contexto, o teatro latino-americano surge não como um refúgio consolador, mas como um laboratório de resistência simbólica. A América Latina é, em si mesma, uma civilização forjada na tensão entre a memória e o esquecimento, entre a utopia e a tragédia, entre a palavra que liberta e o silêncio que oprime. Historicamente, suas dramaturgias souberam habitar essa fratura: transformar o palco em um tribunal da consciência coletiva quando os tribunais reais se calavam e construir beleza onde a barbárie havia arrasado todo o resto.

Não é por acaso que, nos momentos mais sombrios do século XX latino-americano — as ditaduras, os exílios, os desaparecimentos —, o teatro tenha sido uma das poucas linguagens capazes de nomear o inominável. Do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, às criações coletivas colombianas que abalaram os anos setenta e oitenta no continente, passando pelas dramaturgias surgidas do luto e da resistência no Chile, na Argentina, na Colômbia ou em El Salvador, o teatro latino-americano desenvolveu uma poética da emergência: aprendeu a criar em condições adversas, a transformar a precariedade em método e a urgência em forma estética.

O Uruguai ocupa um lugar singular nessa tradição. É um país pequeno em território, mas extraordinariamente denso em sua cultura teatral, que ofereceu ao mundo não apenas dramaturgos e diretores de primeira grandeza, mas também uma concepção do teatro como prática democrática enraizada na vida comunitária. O Carnaval uruguaio — o mais longo do mundo — é também o mais teatral: em seus tablados e em suas murgas pulsa uma filosofia da crítica popular que nenhum decreto conseguiu silenciar por completo, pois vive na voz do povo e em sua capacidade de rir do poder enquanto o nomeia. A murga não é apenas música e fantasia: é uma forma de exercer a cidadania com o corpo, de praticar a memória com ironia e a dissidência por meio do canto.

O Teatro El Galpón, símbolo vivo dessa história, sobreviveu ao exílio durante a ditadura civil-militar e retornou transformado, mais consciente de sua razão de existir. Esse episódio sintetiza algo essencial do teatro uruguaio: sua convicção de que o palco não pode ser indiferente ao tempo que o cerca; fazer teatro também é uma maneira de tomar posição diante da história, não a partir da propaganda, mas da complexidade do humano. Entre os protagonistas dessa trajetória estão a grande referência de nossa América, Atahualpa del Cioppo, o Teatro Circular, a Comedia Nacional, o Complot Teatro, Roberto Suárez, Sergio Blanco, Gabriel Calderón, Santiago Sanguinetti, Marianela Morena, Mariana Percovich, entre outros artistas teatrais uruguaios presentes nos festivais colombianos.

Hoje, quando o mundo presencia uma nova acumulação de perigos que recorda — como assinalava Gramsci — os momentos em que o velho ainda não terminou de morrer e o novo ainda não terminou de nascer, o teatro latino-americano e uruguaio enfrenta seu próprio dilema criativo: como falar da crise sem se reduzir à sua crônica; como ser contemporâneo sem perder a perspectiva histórica; como manter acesa a imaginação política quando o espetáculo midiático esvazia as palavras de sentido. A resposta, se existir, não virá das certezas doutrinárias, mas dessa mesma perplexidade criativa que o texto já aponta como condição dos saberes mais lúcidos de nosso tempo. Porque o teatro latino-americano sabe algo que muitas instituições esqueceram: a realidade mais profunda não se transmite por dados nem por slogans, mas no instante único e irrepetível em que dois seres humanos — um que atua, outro que observa — se reconhecem mutuamente em sua fragilidade e em seu desejo de mundo. Esse reconhecimento ainda é uma forma de política. E nele reside, talvez, a possibilidade mais antiga e mais urgente do teatro: não descrever o pântano global, mas imaginar, de dentro dele, as condições de outra margem.

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