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08 Oct 2026 Por Aimar Labaki

Teatro o milagre cotidiano

Teatro o milagre cotidiano

Dedico este texto ao grande homem de teatro Aderbal Freire Filho, que amava e conhecia o Teatro Latino Americano.

O dia do Teatro Latinoamericano é hoje. E amanhã. E ontem. E todos os que o antecederam e os que o sucederão. Dia do Teatro Latinoamericano é uma efeméride importante por lembrar à sociedade nossa especificidade – e a nós, nosso ofício.

O mundo é dominado por estruturas econômicas, ideológicas e tecnológicas que tendem a substituir a palavra pela imagem, a presença pela virtualidade, o corpo pela máquina, a razão pela mentira, o diálogo pelo algoritmo. Nessa realidade, o Teatro parece impossível.

Afinal, teatro é um corpo na frente de outro corpo, dialogando por meio de elementos do sensível – imagens, sons, símbolos, sensações – em busca de uma compreensão que não se limita à razão, mas não a exclui, na medida em que não abre mão da Palavra.

E, no entanto, nunca foi tão desejável nem tão desejado. Como só existe se os corpos dos atores e dos espectadores estiverem no mesmo espaço, é um antídoto contra um mundo que pretende substituir o encontro pelas máquinas. Por ser presencial, exige que o virtual ceda, por um momento, o seu lugar à presença. Como necessita da palavra compartilhada entre ator e espectador, impedeque a imagem ocupe tudo. Como só existe se o diálogo se estabelece, devolve o irracional a seu lugar fora do protagonismo. Como é o império do desejo e do imprevisível, nenhum algoritmo pode determiná-lo por completo.

Teatro, como toda Arte, não tem função, a não ser seu próprio exercício arbitrário de jogo com osmelementos do sensível – consciente da tradição, enraizado na comunidade, causando inúmerasmconsequências, mas em si inconsequente. Seu único compromisso é com a irresponsabilidade demquem se sabe estar antes de tudo a brincar.

Sua própria existência é política, mesmo que a forma e os elementos do jogo sejam aparentemente desprovidos dessa intenção. Hoje mais do que nunca, teatro é uma resposta em si ao autoritarismo e às respostas prontas e mentirosas sobre o que é o Homem e por que está como está.

A ignorância e o autoritarismo hoje são exercidos com orgulho e despudor. O Teatro permanece humilde em sua certeza de que nada sabe e de que não pode controlar aquilo que é fluxo, que é vida. Os espaços teatrais são lugares sagrados onde os cidadãos vivem o rito do encontro de sua vida particular com a vida da comunidade.

A América Latina está tomada novamente pelo Fascismo. E o Teatro agora, como sempre, é a arma mais poderosa contra ele. Porque Teatro é vida, Fascismo é morte. Sim, todos vamos morrer. Mas a morte só reina do outro lado do Estige. Deste lado, a Vida — e o Teatro — vencerão sempre.

por Aimar Labaki
dramaturgo, diretor, tradutor e ensaísta.
BRASIL

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